Com ensino remoto, aumenta demanda de aulas particulares
- Fernanda Almeida
- 21 de ago. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de out. de 2021
“Não tenho mais vagas para atender alunos”, conta a pedagoga Suellen Pereira

Por conta da pandemia do Covid-19, escolas de todo o país fecharam as portas, e o ensino presencial foi substituído pelo remoto para a segurança dos alunos. Porém, com esse novo formato, alguns estudantes tiveram dificuldades em acompanhar os cursos, fazendo com que pais buscassem aulas particulares.
“Não tenho mais vagas para atender alunos,” diz a professora particular Suellen Barbosa Candido Pereira, 32, que ganhou 11 alunos neste período de pandemia. “Eu percebo que os pais não querem que os filhos sejam meros cumpridores de tarefas, e sim que a aprendizagem ocorra de maneira significativa.”
A administradora financeira Dayane Volpati Caires, 33, mãe de Beatriz, 9, Gustavo, 7, e Theodoro, 1 ano e 8 meses, foi uma das mães que recorreram às aulas particulares da professora. Sua maior preocupação era que os filhos não estivessem absorvendo o conteúdo. Ela se desdobrava entre o trabalho em home office e os cuidados com o mais novo, e por isso não conseguia ajudar muito nas aulas das crianças maiores.
“O Gustavo sempre amou ir para a escola, mas com as aulas remotas ele perdeu o interesse,” diz Dayane. Ela diz que notou também uma mudança no comportamento do filho, que se tornou mais nervoso e agressivo. Foi então que teve a ideia de contratar Suellen. “Com as aulas particulares, o estresse em casa diminuiu, e ele está mais animado para aprender.”
A professora atende alunos entre 4 e 10 anos. Ela recebe as crianças em casa e diz que os pais não entram no condomínio para as aulas, para diminuir a chances de propagar o vírus. O distanciamento recomendado pela Organização Mundial de Saúde é reforçado, e ela e as crianças ficam sempre com máscara — com exceção aos alunos na fase de alfabetização, que precisam visualizar a posição dos lábios e da língua para associar o som das letras. “Eu também deixo quinze minutos entre um aluno e outro para poder higienizar o ambiente e os materiais.”
Para a líder de produção Ana Paula Costa Pasqual Santana, o maior desafio com as aulas remotas do filho também foi o tempo, uma vez que ela e o marido continuam trabalhando fora de casa. Ela conta que quando Nathan Olavo, de 7 anos, começou o primeiro ano do fundamental, no início do ano, ele sabia apenas escrever o nome dele, e não evoluiu com as aulas remotas. Por isso, contratou a ajuda de Suellen. “Essas aulas particulares estão sendo essenciais para ele se desenvolver,” conta a mãe, que pretender manter a ajuda até mesmo quando o ensino presencial voltar.
A professora Suellen Pereira diz que não houve nenhuma procura para as aulas on-line, apenas presenciais, pois, segundo ela, os pais não acreditam em ensino a distância para crianças. “Eles querem um trabalho planejado e elaborado de acordo com a necessidade dos filhos, e não algo generalizado.”
A pedagoga Janete Bortolino, 45, afirma que também notou uma maior demanda para as aulas particulares. Ela atende crianças com transtorno de aprendizagem, como dislexia, autismo e transtorno do processamento auditivo, e afirma que para eles é mais difícil acompanhar as aulas remotas. “Ficam dispersos, desatentos.”
Esse foi o maior desafio das aulas remotas para Pablo Daniel de 7 anos, que tem déficit de atenção. Aluno da escola pública Emeb Sylvia Teixeira de Camargo Sannazaro, em Indaiatuba, Pablo não conhecia o alfabeto, e foi com as aulas particulares que percebeu uma evolução no aprendizado. “Hoje ele consegue formar e ler algumas palavras.”
Diferentemente de Suellen, Janete realiza as aulas nas casas do aluno, tomando os cuidados necessários para evitar a contaminação pelo vírus. Ela sempre higieniza os materiais utilizados em aula e utiliza máscara e álcool em gel. “Mantenho uma distância possível da criança, salvo quando é necessário auxiliá-la segurando a mão.”
A professora particular de matemática Elisa Maris Souza Marques da Silva, 41, também observou um aumento na demanda de aulas, principalmente para alunos do 6º e 7º ano do ensino fundamental de escolas particulares. Por ainda não se sentir segura para voltar o contato com os alunos, Elisa realiza suas aulas de forma remota desde o início da pandemia e tem como apoio uma lousa, para poder explicar melhor a dúvida dos alunos pelas videoconferências.
“Eu preciso resolver o exercício junto com o aluno e mostrar o cálculo para ele entender,” diz Elisa. Cada aula tem a duração de uma hora, mas ela percebeu que, pelo computador, o aluno leva mais tempo para conseguir tirar suas dúvidas. “Na aula presencial, um aluno de dificuldade média conseguia resolver oito exercícios nesse tempo. Na on-line, chega a ser metade.” Mas, apesar dessas dificuldades, a professora defende o ensino remoto. “É o melhor caminho para o momento atual”, diz.
Cuidados

Para Noelle Miotto, infectologista pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a aula particular somente com o professor e o aluno tem uma chance menor de contágio. Mas ela reforça a importância dos cuidados a serem tomados, como o uso de máscaras, a higienização frequente das mãos com água e sabão ou solução alcoólica e medidas de etiqueta respiratória, como evitar tocar o nariz, a boca e os olhos, cobrir com o braço quando for espirrar e manter pelo menos um metro e meio de distância das pessoas no mesmo ambiente.
“As crianças podem ter um papel importante na transmissão, como carregadoras assintomáticas da doença”, alerta. Ela também conta que, apesar de apresentarem sintomas mais leves, há estudos que confirmam que elas podem ter um período de transmissão maior, sendo importante manter as medidas de isolamento social.
Orientação: Profa. Juliana Doretto
Edição: Beatriz Borghini
Matéria realizada no 4º semestre de 2020, sob orientação da professor Juliana Doretto para a monitoria. O objetivo era entender quais são as dificuldades dos alunos que ainda estavam se adaptando no ensino remoto e como isso pode afetar o seu aprendizado Matéria publicada no site digitais.net.br no dia 21/08/2020



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